não te concedi a ti, natureza, a decisão deste dia

Não te concedi a ti, natureza, a decisão deste dia

Nós, pretensiosos.

Nós, fracos.

Nós, humanos.

rejeitamos o efémero, nós. Nós construímos o indestrutível. Nós somos dos que usam o suicídio como luta. Queremo-nos para lá do corpo. Depois da morte permanecemos.

Quem as obras não pretende eternas, não as construa. Criar é fazer do pensamento matéria; e fazer matéria é desafiar a natureza, pedir-lhe o tempo que ela não nos dá.

não te concedi a ti, Natureza, a decisão deste dia é o pedido de eternidade. O último.

Consigo ouvir ecos do meu pensamento. Escuta, estou só.

E toda a música da terra me acompanha. Não me estendas essa mão, olha… vê,

como os dias me vencem e neles ar e sonhos. vê, repara como a solidão me agasalha hoje,

este último que sou aqui.

não te concedi a ti, natureza, a decisão deste dia é fundamentalmente um discurso sobre a liberdade do verbo morrer, que se constrói, cristalino e frágil, como vida, dia após dia: é um corpo que nunca se veste, que é permanente e inevitavelmente visível, mesmo depois da própria morte. primeiro como gesto teatral, depois como decisão instalada em diferentes espaços.

Ficha Artística

uma criação de Daniel Gorjão, em colaboração com Cátia Terrinca, Matilde Azevedo Neves, Miguel Cruz, Teresa Tavares, Sara Garrinhas, Joana Peralta e Sara Vicente.

Duração | 45 minutos
M/16

Estreia | 12 de Setembro a 3 de Outubro de 2011 | Teatro Turim

Reposição | 6 de Julho de 2012 | Festival Inundart, Girona – Barcelona